Quando morre alguém próximo das crianças, eis a questão que surge a muitos pais: devo contar ou esconder a verdade?
Esta história real pode ser útil na tomada de decisão.

A Maria tinha 3 anos. Era a única criança da família, com uma forte ligação aos avós e à bisavó.

A bisavó da Maria morreu e os pais explicaram-lhe que tinha partido e que não voltaria. Que tinha ido para o céu, e que quando as pessoas vão para o céu já não é possível regressar.

A Maria chorou. Compreendeu o que lhe explicaram e chorou muito, durante várias semanas. Os pais, os tios e os avós estranharam a reação, porque não pensaram que uma criança tão pequena pudesse compreender tão bem o que é a morte – e sofrer tanto com ela.

Passados uns meses, o avô da Maria morreu também. Tal como a bisavó, era uma pessoa muito presente, com quem a Maria brincava, conversava e gostava de estar. Receosos de que a reação da criança fosse semelhante à que teve aquando da morte da bisavó, os pais acharam preferível dizer à Maria que o avô tinha ido trabalhar para o estrangeiro, para um país muito distante.

Hoje, Maria é adulta. As separações para si são difíceis, e durante muito tempo teve dificuldade em compreender porquê. Foi na psicoterapia que recordou o avô e a bisavó, e que percebeu que não tinha ainda feito o luto da perda do avô. Permanecia em si a dúvida de para onde teria ido este avô, e uma secreta esperança que um dia regressasse. Continuava a sentir o mesmo que no dia em que, encostada à bancada da cozinha, já com 5 ou 6 anos, se recordava de perguntar à avó quando é que o avô voltaria para casa.

Da bisavó, tem recordações tranquilas, memórias vagas mas sorridentes e apaziguadoras. Do avô, tem ainda uma saudade um pouco angustiante, uma mágoa profunda por nunca se ter despedido.

Inês Pessoa e Costa e Rita Vilhena

Os pais da Maria agiram com o intuito de proteger a filha, que viram que sofreu tanto com a morte da bisavó, e possivelmente para se protegerem a si mesmos da dor aguda que também sentiam, e que não conseguiam expressar de forma tão aberta e genuína como a sua filha. As lágrimas que a Maria chorou pela bisavó permitiram-lhe metabolizar a dor e superar a perda, aceitando e permanecendo com uma saudade suave, alegre. As lágrimas que não pode chorar pelo avô continuaram presas durante a sua vida, reacendendo a dor da sua ausência a cada perda, inevitável, do sue percurso de vida.