Querida amiga culpa,
 
Já nos tínhamos cruzado algumas vezes e já tinhas dado um ar da tua graça, mas foi há um par de anos que nos tornámos íntimas. Apareceste de mansinho no dia em que O Amor Maior explodiu no meu peito, e desde então que te tens deixado ficar, qual amiga sempre presente e conselheira.
 
Foi na minha primeira noite de mãe que me sussurraste de forma inequívoca pela primeira vez. Disseste-me “Não durmas. Ele é tão frágil, tão pequenino, tão dependente de ti… Tens que o vigiar. Só tu lhe podes valer, não te distraias!”
 
Uns dias depois, dizias: “Aguenta a dor. Tens que suportar tudo por ele. Não podes desistir, senão...”
 
O teu discurso mais comum era: “Tens a certeza? O que diz o pediatra? E os blogs? E os livros? E as outras mães? Tens mesmo a certeza que isso é o melhor? A tua intuição pode não estar certa…”
 
Houve dias em que saí de casa, julgando que te deixaria para trás, mas tu saltavas para dentro da minha mala, atenta à primeira oportunidade de me relembrares: “Deixaste-o para te vires divertir? E se lhe acontece alguma coisa? E se ele precisa de ti e tu não estás? Será que não gostas dele o suficiente por precisares de outras coisas?”
 
Começaste então a brincar comigo ao teu jogo favorito: atar nós na minha cabeça. “Não deixes que lhe peguem, ele só precisa de ti.” “Passa-o para o colo de alguém, ele precisa de outras pessoas.” Ou, a minha preferida: “Dá-lhe colo. Ele está a chorar e pode ficar traumatizado se não lhe pegares.” “Põe-no no berço. Ele habitua-se ao colo e crescerá intolerante à frustração.” E mais recentemente: “Vais deixá-lo ir ao passeio? Se deixares e acontecer alguma coisa, eu nunca mais te largo! Se não deixares, ele vai ficar tão infeliz que eu nunca mais te largo!”

Quando regressei ao trabalho, acompanhavas-me diariamente, desde que saía de casa até que regressava, curvada, pesada, culpada.

Em poucos meses, tornei-me no teu maior orgulho: afastei-me das amigas (guardei apenas algumas, aquelas em casa de quem tu também moras), descurei a minha imagem e o cuidado com o meu corpo, abandonei livros que não fossem sugeridos por ti, esqueci o sexo, o marido, o trabalho e a diversão. Fiz tudo, tudo, tudo para conseguir conviver mais pacificamente contigo, sem os assaltos constantes que teimas em fazer.
 
E foi então que reentraste com enorme esplendor! Apareceste em todos os outros recantos do meu ser, para me dizeres que não estava a dar conta do recado. A lembrar que não estava a ser mulher, esposa, amante, filha, irmã, amiga, profissional. Estava só a ser mãe, e tu estavas ali para ficar!

Rita Vilhena 
Mas… não era isso que tu querias? Não foste tu que induziste as minhas escolhas? Deixei tudo, pus-me inteirinha, e agora já não serve? Apareces no resto também?????
 
Querida amiga culpa, tive-te por companheira, qual voz sempre presente dentro de mim a orientar os meus passos, mas constato agora que não estás nem nunca estarás satisfeita. Que vais aparecer sempre que eu te der ouvidos, tenhas ou não razão. Que não serves para nada. Não me serves e não me deixas ser feliz.
 
Vasculhei dentro de mim a razão que me fez acolher-te e viver em função de ti, o que foi que me impediu de ser completa e de me aceitar em todos os pedacinhos do que sou. E conclui que o problema não és tu, sou eu, que te deixei entrar.
 
Querida amiga culpa, chegou a hora. É com a cabeça livre e o coração amplo que te digo finalmente: adeus!