Para crescer de forma saudável a nível emocional há duas premissas básicas indispensáveis: por um lado, ter amor, atenção, disponibilidade e tempo dos pais para si, por outro, ter oportunidades de socializar e aprender a relacionar-se com os outros.

Quando falamos sobre filhos, assume-se com frequência que é melhor ter irmãos do que ser filho único, para ter companheiros com quem brincar na infância e partilhar as experiências e os desafios ao longo da vida; no fundo, para não estar sozinho. Muitas vezes também se assume que ser filho único é sinónimo de ser “mimado” e “egoísta”, porque a atenção da família está centrada na criança e porque existem menos oportunidades de partilhar, negociar, discutir.

Serão estas ideias preconceitos, ou correspondem à realidade?

Na verdade, as duas situações têm características próprias e distintas e nenhuma delas define, por si só, a qualidade da relação com os pais ou a capacidade de se relacionar com os outros.

Os irmãos

Cada criança, quando nasce, é recebida por uma família única e diferente da dos seus irmãos: a idade e experiência dos pais não é a mesma, o número de crianças na família varia, o sítio onde moram, a família alargada, os amigos que os rodeiam, a escola que frequentam, podem ser diferentes. Por esta razão, e embora os valores da família sejam permanentes, os filhos nunca são educados “da mesma forma”, até porque têm temperamentos diferentes, que provocam reações diferentes nos pais.

Um bebé procura o amor e a atenção dos pais, fundamentais para sobreviver, tentando para isso ocupar um espaço na família que seja só seu. Assim, desde muito pequeno, começa a perceber quais os espaços que já estão ocupados pelos outros elementos da família, identificando aquele que que poderá ser o seu. Por exemplo, se o irmão mais velho é muito “crescido” e responsável, o mais novo poderá ser mais “bebé” e rebelde para chamar a atenção sobre si. Desta forma sentirá que é único e especial para os pais.

O lugar que cada criança ocupa na fratria oferece-lhe desafios próprios. O primogénito é geralmente aquele sobre quem recaem as expectativas que os pais, mesmo que inconscientemente, projetam sobre o filho (a nível de comportamento, interesses e gostos). Por outro lado, os filhos mais velhos dispõem muitas vezes de mais atenção e disponibilidade dos pais para si, quando ainda não há irmãos.
Os filhos mais novos encontram pais mais experientes, que os deixam crescer com mais liberdade e que projetam menos ansiedade e menos expectativas. Mas chegam a uma família onde já existem outras crianças e podem sentir que o amor dos pais é algo pelo qual têm que lutar, porque não é em exclusivo para eles.

Muitas vezes é difícil entender porque é que irmãos educados pelos mesmos pais são tão diferentes mas, como vemos, as crianças nunca são educadas da mesma maneira. O contexto e a personalidade de cada uma são sempre únicos.

Socialização

Ter irmãos não permite ter os pais “só para si”, mas cria oportunidades de viver experiências com outras pessoas com o mesmo estatuto.
É esta convivência com os pares que possibilita aprender a esperar, a ceder, a partilhar, e também a afirmar-se, a defender-se, a competir. Estas competências treinam-se desde muito cedo, e serão marcantes na forma como as crianças se relacionarão com os seus irmãos e com os outros ao longo da sua vida, nos diferentes contextos.

A postura dos pais perante o relacionamento dos seus filhos com os outros (irmãos, amigos, colegas) determina se esta tão importante tarefa do desenvolvimento será bem realizada, ou se deixará lacunas na criança. A sua atitude poderá promover uma socialização saudável e impulsionadora de crescimento ou, ao invés, uma permanente rivalidade, que mais tarde perdurará na necessidade de ter e ser sempre o melhor, com um constante sentimento de falta e injustiça.

Ter irmãos não garante, por si só, a capacidade de ser competente a nível social.

A Igualdade e a Inveja

O amor dos pais por cada um dos filhos é igual, na medida em que é incondicional e infinito para cada um deles. Mas pode – e deve! – ser diferente, na medida da diferença que existe entre eles.

A justiça na forma como tratam os filhos é uma preocupação comum e legítima dos pais, que procuram evitar que algum dos filhos se sinta menosprezado ou com inveja face ao(s) outro(s). Há, então, tendência para tratar todos os filhos de forma igual, repartindo “irmãmente” atenção, tempo, oportunidades, bens materiais, etc.

Mas muitas vezes esta “igualdade” é sentida como profundamente injusta, porque não responde ao que cada um dos filhos precisa, mas sim ao que os pais acham que estes precisam e ao que lhes querem dar. Por exemplo, se um filho está triste e com problemas com os amigos, os pais poderão dedicar-lhe mais tempo e atenção do que a outros que estão a passar uma boa fase, em que se sentem felizes e equilibrados. Da mesma forma que se oferecem um piano a um filho com uma clara aptidão e gosto pela música não terão que oferecer o mesmo – ou algo de igual valor – aos restantes. Darão a cada um no momento e na quantidade que necessitar.

E se um precisar de mais, o outro não sentirá inveja ou discriminação?

A inveja é um sentimento que surge quando temos uma necessidade que não é respondida e faz-nos olhar para os que nos rodeiam de forma competitiva, desejando o que eles têm. Se a relação de cada criança com os pais for nutritiva, não estará centrada na relação dos pais com os irmãos, mas sim disponível para disfrutar da sua.

O que podem os pais fazer para promover uma socialização “saudável” entre irmãos?

- Deixar as crianças resolver os conflitos.
A supervisão e proximidade é fundamental, assim como limites claros e bem definidos (nomeadamente não magoar os outros), mas é nos pequenos conflitos do dia a dia que as crianças aprendem a resolver problemas entre si;

- Cultivar uma relação individualizada e promover momentos a sós com cada um dos filhos.
Cada criança é única e precisa de se sentir especial e exclusiva para os pais. Isto não quer dizer que não os queira partilhar com os irmãos, mas apenas que precisa de sentir que o amor deles sobre si é incondicional, que a conhecem como indivíduo único e diferente dos outros, nomeadamente os irmãos.

Para isto, é fundamental que haja momentos, conversas, atividades, cumplicidades entre os pais e cada um dos filhos, baseadas nos seus interesses e características pessoais e, por este motivo, diferentes daqueles que acontecem entre os pais e os outros filhos.

Cada criança tem direito a ter esta atenção exclusiva na medida daquilo que precisa, e isto pode variar ao longo da vida, e ser diferente da necessidade dos irmãos.

Filhos únicos

Ser filho único tem particularidades. Por não existirem mais crianças na família nuclear, são menos as oportunidades de socialização e as experiências onde se podem treinar a partilha, a resolução de conflitos, a cedência, etc. Para além disto, as expectativas e medos dos pais de um filho único recaem exclusivamente sobre ele, podendo levar a uma sobreproteção que limita a autonomia.

Por estes motivos, os filhos únicos podem ser mais birrentos, ter menor resistência à frustração, maior dificuldade em esperar a sua vez e em partilhar, entre outras características que os levam a ser apelidados de “mimados”.

Não ter irmãos também pode ter vantagens: pode significar mais tempo, atenção e disponibilidade por parte dos pais, e maior facilidade em inventar brincadeiras, estar sozinho, resolver problemas sem ajuda de outros e tomar decisões.

Como podem os pais ajudar os filhos únicos a não ser “mimados”?

- Estabelecer regras claras e limites bem definidos.
Os limites são fundamentais para o crescimento de qualquer criança. Mesmo não havendo mais crianças em casa, devem haver regras nas várias rotinas e os pais devem ser firmes na sua aplicação;

- Promover momentos com outras crianças.
Organizar e/ou participar em atividades com outras crianças (na escola, em atividades extracurriculares e com crianças suas conhecidas) proporciona vivências com os pares;

- Fomentar a autonomia.
De forma adaptada à idade, estimular a criança a fazer sozinha, sem a ajuda do adulto, atividades e pequenas tarefas (comer sozinho, vestir-se, ir deitar fora o lixo, pôr a mesa, etc.), e a correr riscos controlados (subir ao escorrega, andar de bicicleta, etc.).

Em resumo, o que é “melhor”? Ter irmãos ou ser filho único?

A decisão sobre o número de filhos deve ser de cada progenitor e do casal, e não deve ser tomada em função dos filhos que já existem, que “pedem para ter um irmão” ou que “precisam de aprender a partilhar”.

Se é verdade que muitas crianças com irmãos socializam facilmente, e que há filhos únicos muito pouco autónomos, também é certo que encontramos muitos irmãos extremamente competitivos e com dificuldade em se relacionar com os outros, e filhos únicos que criam laços muitos fortes e profundos com os amigos.

As crianças são “mimadas” quando não lhes são dados limites claros, quando lhes é negada a autonomia, quando não têm oportunidades de socializar. Mas também quando não têm dos pais a atenção e o amor na quantidade e na qualidade que precisam. Ninguém está “em vantagem” pelo único facto de ter ou não irmãos.

O foco dos pais deve ser educar cada criança com oportunidade de ter estas duas dimensões – o afeto e a autonomia – independentemente do número de irmãos.


Inês Pessoa e Costa e Rita Vilhena

Artigo publicado na revista Pais & Filhos nº 312, janeiro 2017